terça-feira, abril 25, 2006

Luto Dia


Negro dia
Duma revolução
Tão prometida
E ansiada,
Liberdade sonhada
Por uns...
Liberdade perdida
Por outros...
Promessa de libertação
Dum Mundo tido
Liberto,
Duma prisão
Para maior aprisionamento
Do meu coração!

Francisco Canelas de Melo

domingo, abril 23, 2006

A festa azul e branca

Este mês, em Portugal, há mais de três décadas, é considerado o mês da libertação.
Neste mês, os seres humanos que residiam naquilo que Alberto João "da Madeira" chama de rectângulo, esses seres humanos acharam-se libertos.
Este mês em Portugal, há mais de três décadas, é aquele em que os seres humanos portugueses de um Portugal que andou nas caravelas, mas em que isso agora não interessa nada, se permitiu inscrever numa ordem social diferente. Permitiu ir-se institucionalizando numa ordem social normativa, que desconhecia até então, porém numa ordem social que como qualquer outra tem que comportar o conflito.

No "Regime Antigo", em que os nomes das famílias "nobres" era elevado a categorizações intrinsecamentes ligadas ao poder do divino, passou-se para outro instituido. Um outro, em que a facilidade do ser do contra é tão mais apetecível quando se está no sofá de casa, porque não é daí que parte certamente alguma sublevação.

Porque nos esquecemos que para um humanista a sério, não deve, não pode, haver monstros ou santos...

Porque nos esquecemos colectivamente, ou não somos donos de pensares individuais, que certos homens melicianos passaram de uma situação a favor de um regime colonialista, para mudarem os seus pensares como libertadores. Porque foram então os melicianos os libertadores?

Porque existe ainda um preâmbulo constitucional tão obsoleto? Razões históricas somente?

Hoje anomicamente estamos na portugalitude em que as vagas instituições sociais de trinta décadas nos permitem. Hoje na pós modernidade que daqui a trinta outras àguas já não vamos estar seremos talvez Marx, vivendo à custa dos amigos, engananado a mulher com empregadas. Seremos desempregados, passando o tempo todo fechados em bibliotecas a escreveres tratados baseados em estatistica.

Veremos depois Carvalhas, Jerónimos, e veremos neles as caras de Lenine, de Marx, perpetuando os líderes da modernidade póstuma. Soubessem depois os minitros que são os escravos.

Mas a dominação simbólica é tão saborosa... Nem é preciso dominar, conveça-se somente da dominação.

"Antes de mim o dilúvio depois de mim o caos." Calma, calma, calma. Page-se os impostos, as borboletas ainda não bateram as assas. O habitus está lá, permite-nos fugir às armadilhas do subjectivismo, inscreve-se como uma realidade pacífica dentro de nós, não se quer funcionalismo pois não? Agora cá falar de estratificação e desigualdades hieráquicas, os senhores faltaram à votação plenária, falamos mal deles, mas eles são a base do sistema e no dia 25 todos vamos cantar a nação dos barões assinalados. O senhor João da Madeira que se cuide, se não festeja a libertação para a próxima arranja-se maneira de o ir por dançar o Carnaval para outro lado.

O poder só existe num lugar. Porque para nós, ele não se tem, faz-se, constroe-se permanentemente. Porque se julgar o contrário estará ENGANADO.
Atreva-se a mudar, páre, escute e olhe. Observe e sinta. Tenha um governo mais real. Porque não sair para a rua com bandeiras azuis e brancas que sempre foram suas, e não falo das dragonadas.

Mestre, meu mestre, tens tanta razão. "Aquilo que é e que não pode deixar de ser."

A ti o meu muito obrigado

O 25 DE ABRIL E A HISTÓRIA

Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril. Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa. Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no exército, não estava interessado num acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar. Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas dos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas. Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve. O outro problema era da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo, que segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos. Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar. Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses, esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente; as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril. Havia, também, um malefício imputado ao antigo regímen, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados. Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen onopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e undamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquios, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco. Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encubra uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa história uma página ignominiosa de cobardia eirresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa história e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente.

António José Saraiva

JÁ SERÁ ALTURA DE DEIXAR DE COMEMORAR AS DESGRAÇAS DA NOSSA HISTÓRIA : 5-10-1910 E 25-4-74 ?